A falta que faz

Não damos conta daquilo que temos quando temos, apenas percebemos que o que temos nos faz falta quando acabamos por perder o que outrora pensávamos não fazer falta.

Vou passando cada segundo, cada minuto, cada hora e dia entre tarefas pontuais como preparar a minha refeição ou dar aquela corrida da tarde, tarefas agendadas como ir às aulas ou fazer o meu estudo diário, e divido o tédio que é estar no meio de tudo, mas com o nada à volta.

Acordo de ouvido apurado, esfrego os olhos e pego imediatamente, com um gesto automático, no telemóvel! Sim, pode ser cedo, mas já há noticias do outro lado! Podia ser uma simples mensagem, mas para mim seria sempre mais que isso, seria uma espécie de companhia invisível no meio do meu nada, mas entre o meu tudo!

Respondi! A vida continuou para quem enviara aquela mensagem, mas eu no meu entediante e morno começar de dia, virei-me para o outro lado e fechei os olhos, só mais um bocadinho dizia para a minha consciência. À minha hora acordei! Novamente um impulso, mais um gesto automatizado que se vem repetindo dia após dia e novamente mais noticias. Havia passado apenas uma hora, mas eu tinha a sensação que tinham passado muitas mais, fruto do estômago vazio da noite e, fruto da desorientação matinal! Apenas o instinto de companhia funcionou na perfeição!

Passado um pouco resolvi pular do meio dos lençóis, levantar os estores e deixar que a radiação solar externa me raiasse o dia, pouco tempo depois estômago recheado e higiene feita, já estava com mais vontade que nunca de abraçar o meu dia, tal como outros o fizeram antes de mim.

O sol subia, e o meu vazio continuava! Lá fora uma ligeira brisa, mas um calor agradável. O Verão estava diferente! Quererá isto dizer algo? Tentei focar-me nestes ‘pequenos tudo’ dentro do meu ‘grande nada’, mas cheguei a conclusão nenhuma! Pensei e re-pensei e cheguei a temer que tivesse perdido algo que vinha ganhando aos poucos! Afinal não, mais tarde recebi nova noticia e voltei a tranquilizar-me! Só estou com a Paranóia dos sós-que-não-estão-sós!

Um dia o processo automatizado mudou, deixou de se fazer como todos os dias anteriores, passou a ser cada vez menos automatizado, começou a haver uma libertação, começou a criar-se uma falta. Ao início é difícil, depois torna-se complicado e por fim ultrapassa-se, por um lado torna-se bom, por outro torna-se ingrato, triste e mau. No fim de tudo, o gesto que era automático, passa a realizar-se pontualmente, como algumas das tarefas do dia-a-dia, de tal forma é melhor que tornam todos os dias imprevisíveis e quando acontece, torna cada momento mais saboroso, faz-te rejubilar, mesmo que o dia lá fora esteja frio e cinzento em plena primavera.

Conforta-me saber que quando o sol se vai e a lua vem, ou as estrelas aparecem e brilham, eis que a paranóia fica desafogada e passa, conforta-me saber que fico mais contente! É simplesmente a falta que faz…

Página do caderno de Agosto de 2011

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