Mentiras ou verdades escondidas?

Hoje comemora-se o dia mais estranho que talvez haja no mundo, o dia das mentiras. Hoje toda a gente gosta de fazer a sua graçola e lançar a sua bombástica revelação, que andou guardada e fechada num cofre durante tempo suficiente para ganhar agora uma força diferente e parecer que realmente é o assunto mais sério de sempre. No entanto, o mesmo factor que nos leva a querer fazer a mentira sólida, é o mesmo que leva a quem nos lê ou ouve, a duvidar no instante imediato se será realmente verdade aquilo que o interlocutor nos transmite.

E agora faço a questão a mim mesmo se será que não haverá por trás das mentiras lançadas hoje um fundo de verdade? Uma verdade escondida? Afinal e se pensarmos, a mentira torna-se tão mais sólida, quanto mais próxima da verdade se encontrar, ou torna-se tão melhor, quanto melhor for estruturada e para isso tem mesmo de ser baseada em factos verídicos e reais. A resposta à pergunta é factual e pode ser respondida por experiência obtida na vivência.

Quando mentimos, temos por base uma verdade e queremos apenas negar essa verdade, eventualmente dissimulá-la, daí que é praticamente impossível encontrar uma mentira (pelo menos consistente) que resista e que ainda passe pela triagem de uns quantos interlocutores que a apanham, sem que seja descoberta se não tiver como objecto central uma verdade existente e assumida, que reforce e deixe na dúvida qualquer um quando se lança a mentira.

Se formos observar no nosso dia-a-dia, todos enfrentamos a dura realidade de usar algumas mentiras com verdades escondidas, porque dá jeito, ou porque facilita a vida, porque nos apetece ou porque é mais fácil de resolver qualquer situação assim. Por exemplo, quem é que nunca estacionou mal o carro e ao ver um polícia a chegar não foi a correr e disse que tinha sido uma emergência pontual, mesmo que antes a mesma pessoa estivesse calmamente a tomar o seu café e a ler o jornal ao balcão da tasca lá da rua? Ou quem é que nunca respondeu à pergunta básica do “tudo bem?” com um simples, “sim está e contigo?” apenas para arrepiar caminho e evitar prantos maiores? Restringi-me às mais usuais, directas e simples, mas poderia aqui relatar um cardápio maior que o de qualquer restaurante gourmet, afinal de contas o que queremos é esconder a verdade e não mentir, porque nos facilita imenso a vida e porque nos vamos habituando a isso e para tal não chega termos uma ou duas opções, precisamos de 70 ou 80.

Mas cuidado, tornar esta prática num hábito leva à habitual mentira compulsiva, à incoerência e ao mau hábito de falar a mentir, talvez por isso exista este dia, para que toda a gente possa gastar todas as suas mentiras, sem afectar o próximo, porque afinal é o dia das mentiras que não fazem mal a ninguém.

Feliz dia das mentiras!

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