Bilhete de Amor para ti

Não sou destas coisas, não gosto de ter de explanar tudo numa carta, como se de uma comunicação se tratasse. Tu sabes melhor que ninguém tudo aquilo que sinto, tudo aquilo que penso, tudo o que quero dizer, tudo o que não queres que diga em voz alta para que não se ouça. Para que tu não ouças, nem os outros, nem mesmo eu, para que o assunto se vá, se morra, se enterre e que eu o esqueça, tal como tu o vais esquecendo, porque simplesmente não se fala.

Como não queres que se ouça, vou fazer com que não se ouça, mas não posso fazer com que não se veja, porque na verdade, bem, na verdade toda a gente vê, toda a gente sabe, porque no que toca a amor, sentimentos verdadeiros, sorrisos na cara porque sim, cantarolias rua fora e assobiar aos sete ventos, bem no que toca a isso não dá para enganar, porque é simplesmente o resultado de viveres numa paixão ardente e num amor tão poderoso que te faz crer que ninguém te vê, nem ouve, nem está à tua volta, que estás num paraíso, algures perdido e que podes fazer o que queres, mostrar a tua felicidade.

Pois é, tudo isto é verdade, mas ainda assim, tu que estás aí a ler, queres fazer parecer que tudo não passa de uma ilusão, que tudo se vai desvanecer e desaparecer, como as nuvens que trazem chuva, que vão e vêm, que nunca ficam eternamente cá, que acabam por ir chover para outro lado, tu fazes querer que eu queira pensar assim, no entanto eu não sou as nuvens, nem tu és o sol, simplesmente um de nós sou eu, o outro és tu, somos nós, podemos ser nós, não podemos ser eu ou tu.

Já pensaste bem no que seria o amor sem amor? Já pensaste bem no que seria eu sem amor? Já pensaste bem no que serias tu sem amor? Já pensaste bem nisto? Eu já e podes achar que isto tudo é ridículo, mas a verdade é que não consigo perceber como será a vida sem amor, não consigo perceber como posso existir sem amor, nem consigo perceber como consegues tu viver sem amor, eu já pensei bem nisto e digo-te mais, não consigo conceber que por algum momento na tua imaginação fértil e carregada de histórias, palavras, ocupações, estudos, enfim tudo, não te tenha passado pela cabeça imaginares um tu, imaginares um eu e escreveres isso numa equação tão simples de ser resolvida em que o resultado seria simplesmente igual a nós. Não consigo conceber que na tua mente avançada e tão vivenciada como a minha, não consigas entender e compreender que as coisas não acontecem por acaso, que aquilo que hoje acontece é porque amanhã qualquer coisa mais virá complementar isso, que aquilo que demonstras hoje, amanhã virá ainda mais reforçado e não o contrário.

No meio disto tudo, que continua a ser ridiculamente ridículo, só consigo perceber uma coisa, que no meio de tanta encruzilhada, caminhos possíveis e possibilidades infinitas de solução, consigamos ter o dom e o condão de tomar sempre a opção que nos ajuda a complicar mais e mais tudo o que queremos descomplicar…

Transformei a carta que era de amor, num meio desabafo, um desabafo sentido, um desabafo que apenas o faria se estivesse realmente apaixonado, realmente enamorado,… mas… espera, que ridículo, eu fiz um desabafo, logo pela lógica… será que… estou apaixonado?

Continua ridículo, mas já nem me preocupo, já dizia Fernando Pessoa, ou Alberto Caeiro, se preferires, que “Todas as cartas de amor são/Ridículas/Não seriam cartas de amor se não fossem/Ridículas”, afinal consegui ridicularizar tudo, consegui transformar o que era sério no ridículo, consegui transformar o que era sério em amor, agora diz-me lá, será que não podemos transformar a nossa vida ridícula num amor que afinal tem de ser ridículo para ser amor?

Amo-te

Página do caderno sem data

 

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