Tabuleiro de Xadrez

Viajamos mentalmente sobre uma casa de família, dirigimo-nos a várias divisões mas detemo-nos sobre a sala. Encontramos móveis imponentes, cadeiras, sofás, uma mesa onde se junta a família ocasionalmente ou aos domingos no almoço tardio, um suporte carregado de CD’s de música, outro cheio de livros de histórias e de cultura, duas janelas cortam as paredes e num dos cantos encontramos uma pequena mesa, de jogo, com o pano característico verde, num espaço onde a luz do sol apenas bate durante breves minutos da tarde. Lá encontramos um tabuleiro de 64 quadrados alternados entre brancos e pretos, sobre qualquer das posições que queiramos seguir, excepto sobre a diagonal, onde todos os quadrados encontrados no caminho de uma linha recta são da mesma cor. Sobre o tabuleiro há peças brancas e pretas, como as casas.

Do lado das brancas encontramos uma estratégia demasiado defensiva, metade dos peões sobreviveram, um bispo caiu e a rainha está na iminência de se juntar às anteriores, já do lado de fora do tabuleiro. Do lado das peças pretas uma estratégia ofensiva, sem pudor, com cavalos e torres a avançar sem clemência, deixando peões e um dos bispos a defender o seu rei e libertando a sua rainha para incursões de urgência e salvamento a qualquer um dos que se deixar cair na ofensiva, do lado de fora apenas estão dois peões e um bispo que se deixaram ir em sacrifício de uma táctica a provocar o erro do jogador branco.

De um lado um jogador defensivo, a lutar e esbracejar para se manter no campo de batalha, remedeando estratégias, redefinindo cada jogada a partir do momento que realiza um novo deslocamento no tabuleiro. Na sua mente abrem-se milhões de possibilidades, mas o espírito defensivo e a desvantagem numérica não permitem nada mais que uma jogada ponderando imediatamente as duas jogadas seguintes. Do outro lado um jogador que aposta numa entrada forte, movendo as peças importantes e valiosas para a frente de batalha e deixando os mais restritos na retaguarda, joga com sangue quente, sem pensar muito, evitando precalços e tentando forçar o adversário a errar o mais possível.

O jogador branco tem pouca experiência, mas tenta ser o mais astuto possível, as opções vão-se fechando e a vitória parece longínqua. Num acto de boa vontade o jogador preto concede algumas facilidades, dá uma dica na jogada que ia colocar o rei adversário em cheque, sente-se demasiado confiante e acha que está ganho, facilita. O jogador branco usa bem a dica, refaz a estratégia, consegue recuperar alguma desvantagem, deita abaixo uma torre, envolveu o cavalo numa batalha que acabou por levar três peões, a estratégia está quase montada para dar a volta ao jogo, a rainha tem de vir ajudar a terreiro e o rei começa a esconder-se entre uma torre e três peões, a defesa fragiliza e a pouca estratégia encurta o tempo de jogo que parecia ser ainda um pouco longo.

Sobre um dos sofás o jogador preto enterra-se até a sua cabeça ficar ao nível dos ombros, a batalha começa a parecer cada vez mais perdida e a estocada final aproxima-se, o rei cada vez está mais isolado, os peões não podem recuar para o auxiliar, já só há a rainha, uma torre e um cavalo perdido que a um só movimento pode ser mais carne para canhão. O jogador branco deu a volta ao jogo e parte para a mais bela vitória da sua vida no xadrez, afinal ele nem sequer sabia muito de xadrez, mas soube levar a estratégia e aproveitou com a bondade do adversário. O jogador preto não é profissional, mas desde sempre jogou xadrez aqui e ali, com alguém, aprendeu uns truques, mas não foi suficiente, a pouca estratégia e o facto de ter clemência pelo adversário acabaram por trazer-lhe esta derrota.

Uma mulher vence um homem, afinal há estratégia, afinal há método de parte a parte. Cada um jogou com as armas que teve à sua disposição. As palavras não chegaram. Ao início ela até disse que não sabia jogar e ia perder, ele quis ensinar-lhe, ela aprendeu e no fim deu-lhe duas lições. Não chega jogar muito, é preciso ter estratégia, não chega querer ganhar, é preciso ter as peças certas no tabuleiro e saber o local exacto onde as colocar a cada jogada, para isso também a ajuda que afinal não foi mais que uma sentença do fim do jogo ajudou, ajudou a mulher, prejudicou o homem.

No final cumprimentaram-se como bons desportistas, o cumprimento foi também de despedida. As peças e o tabuleiro foram arrumadas na caixa, que por sua vez foi para dentro do móvel, onde estão tantas mais coisas guardadas, como álbuns de fotografias, ou aquelas VHS que já nem se vêm, ficaram só como recordações.

O xadrez passou para um jogo de escondidas, só que o homem, outra vez, ainda não conseguiu ganhar…

Texto do caderno de 13/01/2015

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