Vidas mecanizadas I

O relógio digital, colocado no cimo da mesa de cabeceira marca 07:25 em números vermelhos vivos. Daí a nada, supostamente, começará a tocar deitando cá para fora as primeiras notícias do dia, uma canção, uma música mais electrónica, diálogos entre os locutores da rádio… Alguém deveria estar deitado na cama, à espera que isto tudo acontecesse, mas o espaço está vazio. Os lençóis não estão amarrotados, nem há indícios de que alguém tenha sequer usado o doce leito para um descanso refrescante. A verdade é que alguém esteve a trabalhar até às mesmas 07:25 que o relógio marcava à minutos atrás.

É duro, uma noitada destas já não se faz com ânimo leve, nem com a frescura de outros tempos, uma noitada destas já nem é lembrada, de tal forma que, as próximas oito horas de trabalho efectivo ficarão amargamente gravadas.

Incrivelmente tudo ficou feito, tudo o que estava no plano ficou concluído durante essa noite, não sem antes terem sido devoradas doses de nicotina e cafeína suficientes para deixar qualquer sistema nervoso em estado de sítio, em aceleração constante e a um ritmo frenético, tão grande, capaz de fazer inveja às figuras mais sadias que pela manhã aparecem cheias de energia. São os males que levam ao bem e, os tais fins que justificam os meios…

Com o correr da madrugada, o frio foi-se fazendo sentir, as mãos enregelando cada vez mais com o aproximar das primeiras horas de sol e o gelo lá fora, bem esse está tão ou mais gelado que o gelo do Ártico. Está frio! Está frio e basta, mas não foi por estar frio que a rotina maldosa e mecânica deste ser deixou de ser tomada. De há uma semana a esta parte esta rotina tem-se afirmado, o que indica que os níveis de stress estão a atingir novos máximos e o descontrolo é sinónimo de perigo iminente… Para aumentar ainda mais os sinais de alerta, dois ou três cigarros por dia, para manter o corpo enganado, para o manter com a informação contrária à do stress, para tentar matar o stress. Não há como resistir!

O momento de ouro do dia acontece quando se abre o estore e a janela, sente-se o vento cortante que vem de fora para dentro de casa, mas sem hipótese de demover e como um valente criminoso, cometo aquele crime. É dada a ignição a “mais um dos pregos que um dia fará um caixão”, mas o corpo não rejeita e o cérebro pensa: “É do stress! É do stress!”.

A única coisa boa porventura será o facto de nesta longa rotina, conseguir retirar uma extrema satisfação dos poucos minutos que dura aquela barrinha de alcatrão a consumir-se, em que o frio ataca como se um esquimó ali estivesse, mas que é totalmente retribuído com a observação única do magnífico céu de Inverno estrelado. Talvez o céu mais bonito de todo o ano, carregado de luzinhas brilhantes, como que a fazer crer que brilham mais, para elas próprias se aquecerem do frio e transmitirem-nos que também nós temos de brilhar para fazer esquecer esta intempérie aguda de fortes nortadas e gélidas águas.

No meio de tudo isto descobri o ponto de maior foco deste céu, aquela que é a estrela que mais brilha por esta altura, a tal que já indicou em tempos os caminhos para os Magos Reis, aquela que todos os dias até Fevereiro é a primeira a chegar e a última a ir embora, que nos diz  Boa-Noite e Bom-dia, basicamente, que nos transmite conforto e aquele aquecimento interior de que tanto precisamos por causa da janela aberta.

É curioso… Como isto se passa e interliga com tudo ou nada daquilo que nos rodeia, é curioso, como estou aqui a falar sobre ela e ela já me disse o Bom Dia e foi embora, mas sei que mais cedo ou mais tarde virá e dirá Boa Noite!

Página do caderno de 2/12/2013

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