É Amor? Claro que é!

Estamos em pleno Fevereiro, uma tarde normal. Lá fora chove copiosamente, não há nada que demova alguém a sair de casa, pelo menos a pé, com um guarda-chuva e um casaco, é impossível alguém querer atravessar meia cidade assim, sujeito à intempérie, sujeito aos condutores que não respeitam os peões e que passam a toda a velocidade por cima das poças de água que se vão criando junto aos passeios. De manhã o sol ainda brilhou, mas com o andar do dia o tempo tornou-se cada vez mais invernal, ainda assim, haviam compromissos inadiáveis, nada iria ser desmarcado, nada se ia alterar, pois bem, não era meia chuvinha que ia mudar isso. O problema é que lá fora não estava meia chuvinha, estava meio temporal, mas que diabo, os chapéus de chuva foram feitos para alguma coisa ou não? Aconchegou-se num casaco, saiu com uma roupa um pouco desadequada para o tempo que se fazia sentir, pegou no guarda chuva e lá meteu pernas ao caminho, lá foi ter com ela.

Demorou mais que o normal, ela não desesperou, mas ia-se queixando do outro lado da linha. “Está frio!”, “Tenho o cabelo todo molhado!”, “Não consigo ver nada, os óculos ficaram cheios de pingos.” e ele lá ia andando, pensando no quão bom seria chegar lá, poder dar-lhe um abraço, ao menos esse traria algum calor, talvez um beijo, de certeza um beijo, que acabaria por confortar ambos e fazer esquecer o resto, lembraria antes que, aquele era um dia diferente, daquele que se fazia sentir na rua, deixava de ser um dia frio e chuvoso para passar a ser um dia quente e mais simpático, pelo menos para estes dois. Entre poças e pocinhas, alguma chuva que teimava em vir fora dos limites do chapéu, com os pés todos molhados, lá chegou ele ao ponto de encontro marcado, improvisado devido à intempérie, numa qualquer paragem de autocarro onde a chuva não ameaçava ninguém.

O que aconteceu, mal se colocaram à distância de um braço um do outro, foi simples, pura felicidade, puro sentimento de amor, abraçaram-se sem fim, beijaram-se sem tempo nem regras. Mudou o dia completamente, de repente aquela tempestade toda que não desaparecera da rua, tornou-se numa viagem mental para um destino paradisíaco qualquer, onde está sol, onde não chove, onde o dia é alegre, onde se passeia sem chapéus nem gabardinas. Ficaram ali um bom bocado, já não havia preocupações, apenas lhes interessava estarem perto um do outro. Decidiram que nem valia a pena enfrentar a chuva, esperariam pelo primeiro autocarro e iriam até qualquer lugar, quente e abrigado, onde estariam o tempo suficiente para se apaixonarem mais um pouco, onde pudessem simplesmente caminhar lado a lado, de mão dada, sem problemas, apenas estando juntos.

Seguiram rumo ao destino, o local, bem, esse nem era o melhor para se passear com alguém que realmente se ama, talvez fosse, se estivessem a pensar decorar a casa, ou colocar um candeeiro novo no tecto, mas isso nem lhes interessava, apenas queriam vaguear por aí, juntos, pouco importando o espaço físico que os rodeasse, apenas andando, parando, trocando olhares ternos, beijos rápidos, pequenos afectos, comentando sobre as pessoas que iam olhando para a sua loucura exagerada para um lugar tão comum como aquele em que estavam, isso nem lhes interessava, riam de si mesmos, trocavam graçolas sobre as crianças que tinham ficado a olhar e sobre aqueles velhinhos que tinham ficado a comentar… Bolas! Nada disso interessava, estavam felizes, sorridentes, de coração quente.

Afinal de contas, o que importa o lugar, as circunstâncias, o tempo, o clima, as adversidades, os outros, tudo o resto, quando o que realmente há é amor, amor puro e sentido?

Texto do caderno de 17/02/2015

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