O velho e o cão

Numa cidade repleta de pessoas encontramos por vezes indivíduos que parecem não fazer parte da mesma rotina e ritmo de vida que o rumo dos grandes centros urbanos conduz. Viajamos por diversas cidades ao longo do tempo, ou vivenciamos apenas a nossa urbe, mas encontramos sempre alguém com essas características, normalmente alguém que veio de fora à pouco tempo e ainda não se habituou ao frenético ritmo de vida e à exigência de um local plantado de carros, alcatrão e betão, ao invés de árvores altas e titubeantes da brisa do ar e jardins floridos, qual paraíso ou jardins suspensos da terra média.

Numa qualquer cidade destas, há um estereótipo de habitante diferente de todos os outros, deixemos o estereótipo e individualizemos a questão. Será um indivíduo pacato, homem de estatura média, com cabelos já grisalhos, um pouco vincados do uso constante da sua boina, peça de roupa que não dispensa fruto da protecção que sempre lhe trouxe quando trabalhou no campo. Além de pacato, este senhor é bastante perspicaz e sábio, sabe sempre o que dizer, quando dizer, porque dizer, não fala aos sete ventos, nem desperdiça o seu latim em algo que não lhe pareça adequado, muito menos o desperdiça se não estiver à vontade com o tema que se vai discutindo no café, ou na mercearia, ou no trabalho, ou na rua, ou nos jardins citadinos, réplica dos gigantes campos verdejantes da montanha, onde tantas vezes vagueia à procura do que melhor lhe sabe, o ar puro, a luz do sol por entre as verdes veredas e o conforto de um comum banco de jardim, ou os seus amigos de ocasião do dominó, da bisca e da sueca.

A acompanhá-lo, o seu fiel companheiro, o seu melhor amigo, o único em quem confia, trata-o como um filho, é a sua companhia desde as 06 e 30 da manhã quando se põe a pé, até às 22, da noite, quando se cansa do dia passado e decide embrenhar-se na sua cama, à espera que descanse o suficiente para conseguir aguentar mais um dia na “cidade louca”, como lhe chama. O seu companheiro foi apelidado de Fiel. Vieram os dois do interior do país, estavam praticamente sós naquele pequeno lugar, “perto do fim do mundo” como o velho costumava apelidar ao local onde tinha a sua casa de sempre, que o vira nascer e crescer, até que decidiram ser tempo de mudar. A saúde não dava para estar tão longe do essencial, a paciência para estar só tinha-a, mas as forças para cultivar a terra, criar as galinhas e manter a casa sustentada já não era a mesma. Além disso, só lhe restava mesmo o Fiel, os vizinhos da casa dos socalcos tinham ido embora para lá de um ano, para casa dos filhos, fruto da mesma situação, mas o velho, teimoso e lutador sempre quis ficar, até ao dia em que percebeu que não podia continuar como um exilado no seu próprio pedaço de terra, na sua aldeia, no seu lugar.

Viajaram de comboio, demoraram quase um dia, trouxeram o básico. Ao Fiel, só lhe coube trazer uma coleira, o seu cesto de dormir e pouco mais. O velho trouxe as suas roupas, um malão de viagem em que condensou e comprimiu tudo ao máximo. A mudança de vida implicava trazer os seus pertences, mas o velho optou por trazer apenas o básico. Não estava feliz de ter de viver na cidade, sentia-se com menos liberdade, com menos pureza, com menos ocupação. O Fiel sentia-se restringido, não podia correr por onde queria, não podia trazer os pássaros que apanhava para casa, porque na cidade quase não os avia, tirando os pombos que eram muito mais astutos que os do campo e que sabiam qual o tempo em que tinham de bater a asa para o cão não os apanhar. A vida destes seres mudou completamente, fruto da evolução.

Não foi fácil para nenhum dos dois durante os primeiros tempos. Os hábitos e rotinas mudaram, agora o Fiel passava mais tempo fechado em casa, o velho passava mais tempo no café, ia ler o jornal, discutir sobre as letras gordas e os títulos escaldantes quando alguém o interpolava, porque o ritmo da cidade não dava tempo às pessoas para ler as noticias por inteiro. Duas vezes por semana ia à mercearia, eventualmente jogava no totoloto para tentar um ganho extra que o ajudasse a complementar a pouca reforma que trazia todos os meses no bolso. No entanto todos os dias, fizesse chuva, vento ou sol, o final de tarde, antes do anoitecer era totalmente dedicado ao seu Fiel. Pelo jardim desfilavam os dois, até encontrarem um banco de jardim livre, onde o velho se pudesse sentar e ficasse apenas a observar a felicidade do Fiel por poder correr e saltar que nem um louco, livremente, como nos tempos do pequeno lugar na aldeia, era assim que matavam as saudades do pequeno lugar e da aldeia, era assim que conseguiam superar cada dia e viver melhor o dia seguinte.

Foi assim, até ao fim dos seus dias, sofreram com a mudança, mas souberam adaptar-se à mesma mudança, souberam viver, souberam superar-se e superar as saudades de tudo e as contrariedades daquilo que parecia inadaptável, conseguiram viver sem o que tinham tido durante uma vida inteira, viveram pior, mas o facto de serem fiéis sempre até ao fim, acabou por fazer com que ambos envelhecessem felizes.

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