O poema em prosa

É hora de abrir o caderno, estou sentado algures por aí, num banco de jardim empedrado, refastelado e calmo. Trazia um livro e o caderno de capa amarela, prefiro usar o segundo, dá largas à imaginação, dá asas ao pensamento e permite recordar, reviver, revisitar momentos, bons ou maus, mais ou menos. Ao meu redor uma calmaria enorme ronda o jardim. Vão passando pessoas a conta gotas, os pássaros fazem-se ouvir e ver em corridas aladas uns com os outros. Casualmente no rio, é possível ouvir um peixe que vem à superfície e imprime sobre a água uma onda de choque, do seu choque com o ar. Se observar ainda mais ao redor, as árvores já estão animadas, estão a ganhar cor, o Inverno já foi embora, a Primavera chegou, já há mais luz de sol durante o dia, a clorofila está a saltar toda cá para fora, quais hormonas em estado de adrenalina. No bolso do casaco, retiro uma caneta, começo a escrever, é raro escrever poesia, prefiro as prosas, ainda tento fazer uma estrofe, mas esta não saiu bem e deixei a ideia de parte.

Preferi escrever o meu poema sob a forma de uma prosa engraçada, afinal o poema e a poesia em nada diferem da prosa e das histórias que se escrevem, a única divergência que os distingue é o lirismo e o rimar, coisa que se pode sempre adicionar a uma bela prosa, de forma bem recatada e bonita, apesar de não tão pomposa e artística. É preciso arte e engenho para conseguir tal feito, todo o poema deve rimar, apesar de não ter obrigatoriamente de o fazer, mas o poema deve ser algo lindo e diferente, algo que cative os mais desatentos, os maiores críticos, os mais românticos e os mais banais, deve transformar a opinião de todos os que pretende atingir, deve ser simplesmente belo.

Particularmente, não sei escrever boa poesia, prefiro sempre a prosa, deixo as histórias fluírem e não vivo preso à ideia da rima poética. Já escrevi em tempos um ou outro poema isolado, mas é tarefa árdua, no entanto sei, que sempre que o fiz, fi-lo de forma bela, sem falhas, com pequenos erros, apenas porque não tenho a prática regular, nada gravosos no entanto, mas belo, espantoso e diferente, porque, quando quiser que alguém o leia, quero que seja simplesmente diferente, que consiga chegar às profundezas mais recônditas e que faça resplandecer uma luz brilhante e intensa de tal forma que se transforme num sorriso contagiante na zona mais superficial.

Foi assim que encarei a escrita de mais uma página do caderno, foi assim que escrevi mais uma história de que tanto gosto, não foi com o poema versaico, mas sim com a minha linha marcante prosaica. A lógica foi a mesma, apenas tentei ser mais lírico. Dei a conhecer as personagens, o local, os pormenores, coloquei todos a contracenar no maior palco do mundo, onde qualquer um os pudesse ver, onde fosse possível acompanhar o desenrolar da história e onde no fim, a salva de palmas fosse ensurdecedora, intimidadora, mas recompensante. Apesar de tudo, não é tarefa fácil encenar uma peça do tamanho de uma vida, com o sucesso que queremos garantido para a poder apresentar em palcos tão grandiosos e marcantes, também não é fácil, encenar essa mesma peça com base num texto fraco, reduzido, demasiado limitado e sem lirismos, sem conteúdo, com frases soltas ou sem conexão. Talvez até possa ser simples, se esse texto desconexo for um poema, os floreados de cada linha, disfarçam a ausência de conteúdo, talvez consiga tornar algo melhor e mais colorido, mas o palco do mundo, exigente e bastante difícil de convencer de forma leve, não aceita peças de vida curta, muito menos artistas sem talento.

Eu não sei escrever poesia, muito menos sei escrever peças de teatro, mas com os actores certos, com as palavras poéticas a fluírem naturalmente, com a encenação bem planeada, com o local devidamente aprimorado, posso tornar-me o melhor poeta do mundo, o melhor encenador, o melhor actor, mas no conjunto de tudo isto, o resultado desse sucesso vai ser exactamente o poema que sempre quis escrever.

Fechei o caderno, arrumei a caneta, peguei no livro, mas entretanto passou alguém que se sentou ali ao lado e me perguntou se era escritor. Disse-lhe que hoje tinha sido poeta, mas que normalmente sou apenas um composicionista barato, de trazer por casa num caderno de capas amarelas, com letra tosca e rascunhos limpos. A conversa ficou por ali, peguei no meu livro e no caderno e segui para outra paragem. Nunca mais escrevi um poema tão bonito como este.

IMG_20150223_130338

Texto do caderno de 30/03/2015

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s