É tão boa a liberdade

É de manhã, acordamos, ligamos a TV, tudo normal. Tomamos o pequeno almoço e ouvimos o primeiro noticiário do dia. As noticias são as mesmas de sempre. A economia não está famosa, a bolsa andou a semana toda aos altos e baixos. O governo e os partidos começam a preparar as eleições que estão por vir, começa a campanha desenfreada, os jornalistas comentam o que se passou durante a semana, são contra algumas ideias que querem ser levadas por diante do lado dos partidos que prejudicam a comunicação social. No desporto só se fala de bola, temos um clássico à porta que vai decidir o campeonato, para o bem ou para o mal. Na cultura renasceu Capitão Falcão, re-inventado na grande tela cinematográfica, o herói, o super herói, o único de nacionalidade portuguesa, que vinha para salvar o fascismo e derrotar os capitães de Abril. Estamos precisamente em Abril, no dia 25, dia maior da liberdade.

Não sei como era viver sem liberdade de expressão, sem poder ver isto tudo que vi no jornal hoje de manhã, ou ver realidades distorcidas para dar felicidade a um povo. Sei, pelo que leio, pelo que ouço, que foi um tempo conturbado, vivia-se de medo, a maioria submetia-se ao medo para viver. Deixaram de lado sonhos e vontades, puseram de parte uma vida melhor, porque a isso os obrigaram. Foi o maior período ditatorial que se viu na Europa sulista, isso valeu-nos um retrocesso de décadas e um atraso igual ao retrocesso, mas não é por isso que vivemos agora numa crise, longe disso.

Na altura vivia-se uma crise de liberdade de expressão, de opressão, de mordaça na boca e de actos contidos. Hoje vivemos no extremo oposto.

Podemos agradecer a quem se revoltou. A quem foi em frente e soube sempre ser contra o regime. Há quem diga que o povo se revoltou e conseguiu a mais bonita revolução de sempre, sem derramar um pingo de sangue, eu diria que o povo ajudou, mas só o conseguiu depois de ficar contagiado pelo acto heróico daquele homem que foi a peça mais importante no meio deste jogo de xadrez gigante, o Capitão Salgueiro Maia.

Sou suspeito de falar de tão ilustre figura, homem a quem lhe foi incumbida a missão chave de ocupar o Terreiro do Paço e impedir a fuga dos leais ao regime, homem que acabou por ser quem levou o Presidente do Conselho de Ministros a render-se perante um povo sedento de liberdade, mas se hoje posso dizer estas coisas, se hoje podemos ouvir um noticiário sem que escolham as noticias que querem mostrar por nós, se hoje posso falar e dissertar livremente sobre temas fracturantes da sociedade, em muito se deve a este Capitão e a todos os tropas e membros das forças armadas que há 41 anos fizeram os nossos pais, avós e tantos desconhecidos por aí fora, acordar de madrugada e ouvir na emissão do velhinho RCP que a revolução estava em marcha, que tudo ia correr bem!

Correu bem, somos livres, devemos agora saber aproveitar e gozar dessa liberdade. Liberdade a todos!

 

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