Carta ao futuro de um país

Olá a todos os alunos do ensino escolar obrigatório do nosso país.

Sei que não era eu quem devia responder à carta que por aí andou a circular, redes sociais fora, mas sinto-me no direito de dar o meu parecer enquanto pessoa que já passou por tanta auscultação da palavra “EXAME”. Ouvi a palavra tantas vezes que isso só me fez lembrar duas coisas: primeiro que tinha de me esforçar de forma a obter o melhor resultado possível na prova, uma vez que era ali que jogava a verdadeira cartada de avaliação em conjunto com os meus pares a nível nacional; segundo, sabia que no fim de sair da sala onde realizava aquela prova iria sair muito mais consciente do que o futuro me reservava. Mas já lá chegamos.

Eu e tantos milhares como eu que entraram na escola primária por volta do ano escolar 1995/1996 temos uma grande mensagem para vos transmitir, nós fomos uma espécie de cobaias das reformas do ensino obrigatório e ensino superior ao longo do tempo que frequentámos os diversos anos de escolaridade, mas já lá chegamos.

Começando do início, a minha geração e talvez as três seguintes à minha estarão lembradas que ainda frequentámos a escola numa altura em que aprendíamos tudo com métodos relativamente atrasados em relação ao que era expectável para a altura. Também aprendemos a valorizar o respeito, por colegas e professores, aprendemos a manter a ordem quando era preciso (nem que para isso o(a) professor(a) necessitasse de levantar a voz, colocar de castigo, escrever um recado ou até dar um puxão de orelhas, se não um estalo, para que tal acontecesse), aprendemos a aprender, de forma pouco usual nos dias que correm. O método era ligeiramente antigo, mas os resultados estavam à vista, bom comportamento, pouquíssimos ou nenhuns miúdos com problemáticas de ordem hiperactiva, bons/médios resultados escolares. Nesta fase cheguei a ser repreendido e a levar um puxão de orelhas e uma estalada, porque tinha feito algo que não se coadunava com o comportamento expectável de um aluno daquela idade e garanto-vos que isso só me fez crescer mais e não me deixou com marcas psicológicas ou físicas.

Da primária passámos para a escola básica do segundo ciclo. Aqui começámos a ser as tais cobaias. Foram introduzindo reformas (ainda não as dos exames do ensino básico), mas foram tentando corrigir alguns aspectos que eram considerados ultrapassados. Promoveu-se a comunicação professor/encarregado de educação via recados na caderneta escolar, promoveu-se algumas metodologias de ensino ligeiramente diferentes e mais avançadas e promoveu-se a modernização de parâmetros tão simples como o respeito e a ordem. Aos poucos os professores tornaram-se mais permissivos, mais amigos e começaram a tentar educar-nos de forma mais leviana, tal só levou a que começassem a existir faltas de respeito menores, piores resultados globais na aprendizagem entre outros. Eu próprio cheguei a confrontar uma directora de turma, num momento de plena estupidez da minha parte, o que me valeu uma repreensão e chamada do encarregado de educação. Felizmente os meus pais souberam repreender-me de forma correcta, caso contrário o episódio poderia ir-se repetindo e repetindo…

Nesta fase considero que sim, ainda somos verdinhos para ter provas de fogo de elevado grau como um exame, mas se não começarmos de pequeninos como é que vamos torcer o pepino? Vai ser mais difícil, vai doer e vai causar mais mazelas porque vamos lidar com a dureza e realidade do ensino no único momento chave em que não podemos errar. Basicamente vamos ter a nossa prova de fogo debaixo do turbilhão que é a ideia de ter a entrada para a faculdade a ser jogada numa única cartada. E isto leva-nos ao ponto da rigidez e da preparação que o ensino te dá no futuro, na escola secundária.

No terceiro ciclo do ensino, as coisas estão mais sérias, são três anos que vão definir muito do que seremos, do que queremos, do que faremos um dia. É nesta fase que quem quiser seguir a vida académica e ter “o canudo” tem que mostrar o que vale e é nesta fase que quem quer ir trabalhar após concluir o terceiro ciclo tem de aprender a lutar contra as contrariedades do dia-a-dia. É para isso que existem os exames, é com a função de seleccionar e dar capacidade de superação às pessoas que por eles passam, não é para nos deprimir, nem para nos meter medo, é simplesmente para nos fazer evoluir.

Estou na faculdade à oito anos, estou na fase derradeira desta vida académica e se há coisa que eu agora sinto é que preferia muito mais ter sofrido com um ensino mais rígido na fase em que mais facilmente me moldava e ganhava rotinas, do que me ter deparado com essa dura realidade apenas quando passei ao ensino superior e, depois, ser tarde de mais para conseguir adaptar-me ao que me devia ter adaptado naturalmente em 12 anos de ensino obrigatório.

Concluindo, nada do que vos apresentam como “EXAME”, “O EXAME”, “A PROVA FINAL” é um bicho papão, é apenas uma forma de vos adaptar para a vida fora das estufas onde viveram até agora, onde há chuva, vento, neve, gelo, onde o ambiente é descontrolado e vocês têm de aprender a safar-se com as armas que vos deram até aqui.

Agradeçam por aprenderem a estudar e sobretudo a viver e não se lamentem por vos exigirem tão pouco como vos vão exigindo nesta fase da vossa vida.

Um abraço sincero e votos de excelentes resultados

André Filipe Simões

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3 pensamentos sobre “Carta ao futuro de um país

  1. Depois de ler quer o texto que motivou o seu texto, quer o seu texto, deixe-me dizer-lhe algumas coisas.

    Em primeiro lugar, deixe-me dizer-lhe que, da minha perspectiva, quando fala de que os exames existem «com a função de seleccionar e dar capacidade de superação às pessoas que por eles passam, não é para nos deprimir, nem para nos meter medo, é simplesmente para nos fazer evoluir», está a efectuar, creio eu, uma análise não assim tão acertada. Mesmo que seja essa a justificação que se dá oficialmente, os exames constituem, a meu ver, o mero cumprimento de uma “tradição” que tem estado latente ou subjacente à maioria dos sistemas de ensino europeus desde há cerca de duzentos anos (podendo-se dizer, então, que constituem o cumprimento e a propagação de um “dogma” educativo que tem vindo a sofrer poucas ou nenhumas alterações ao longo do tempo, se ignorarmos o curto período de tempo em que os exames nacionais não estiveram implementados no ensino português) e que têm vindo a ser vistos como uma forma justa, objectiva e imparcial de avaliar os alunos.

    É certo que não é assim tão fácil quanto isso defraudar os resultados dos exames (leia-se cabular ou copiar), mas também temos de admitir que todo o ser humano é falível e, por isso, é sempre possível o exame ser erradamente corrigido (mesmo após a revisão de prova). E, além disso, parece-me que avaliar todos por um mesmo critério quando nem todos estão nas mesmas circunstâncias (por exemplo, quando o programa não foi leccionado a todos…) não potencia a objectividade e a justiça que se supõe que os exames representam. Assim, creio que os exames não são tão desejáveis quanto se poderia pensar.

    E, já agora, deixe-me pedir-lhe que reflicta comigo: não seria melhor se o sistema de ensino providenciasse mais flexibilidade, mais possibilidade de escolha, em vez de forçar os alunos a enveredar por uma área específica, que afinal não é tão específica assim, mas que impede o prosseguimento de outras? Se permitisse aos alunos simultaneamente uma maior abrangência de conhecimentos (se assim o desejassem) e uma maior especialização numa dada profissão/actividade? Se fosse focado verdadeiramente na transmissão de conhecimento, e não no simples cumprimento de um programa não tão lógico e racional quanto isso? Se não houvesse separações mais ou abruptas entre vários graus de ensino, antes um progresso mais ou menos contínuo rumo ao conhecimento?

    Caso esta perspectiva lhe apele, gostaria de lhe deixar a sugestão de um sistema de ensino alternativo: http://porumnovoensino.blogspot.pt/p/blog-page_27.html

    • Caro Mudar o Ensino

      Folgo em ver uma opinião tão bem formada, a qual parabenizo desde já, por ser assente num ideal e numa série de bandeiras opinativas que de resto conduzem sempre à evolução quando bem discutidas.
      Começo por realçar o ponto em que fala da possibilidade de existirem critérios dúbios na correcção de um exame nacional, coisa que acho difícil de acontecer, visto que existem equipas próprias, formadas por professores, que certamente são instruídas a adoptar critérios uniformes, que lhes são transmitidos (os critérios) ao longo de formações técnicas criadas para o efeito. A dualidade de critérios a que se refere, certamente será a dualidade criada pelos “buracos” criados ao longo do ensino da pessoa que se submete a exame, eu próprio os tive. Esses “buracos” diga-se a bem da verdade são o tal exemplo que refere, de o programa não ser leccionado a todos. Mas que diabo, então o programa não é estruturado a nível nacional? E não é só objecto de avaliação o programa que é obrigatório leccionar em todas as escolas? Entra pois aqui outro assunto, a competência dos professores. Isto na minha visão e concepção do que descreve.

      Por fim, quanto ao exercício de reflexão que me pede, eu reflicto, vejo à minha volta e encontro uma série de oportunidades que hoje existem, que há 8 anos não existiam, uma série de cursos profissionais, que ajudam os que não querem seguir além da escolaridade obrigatória. Até no ano em que saí do ensino secundário, a minha escola já tinha um curso de eletrónica, um curso de artes, um curso de informática, tudo coisas viradas para uma área oposta à área geral das ciências, quer sociais e humanas, quer naturais e tecnologias.
      Agora dou-lhe razão quando refere que os cursos são virados para o debitar de matéria e não para a aprendizagem no verdadeiro sentido da palavra, mas por vezes isso nem é culpa do programa, mas sim de quem executa e planeia o programa!

      Uma vez que a página que me enviou ainda é algo extensa, vou carecer de algum tempo para a analisar, mas prometo que tecerei um comentário quando estiver em condições de o fazer.

      Um bem haja e até breve

      • Caro André Simões

        Desde já lhe agradeço pela sua resposta e por ter seguido a sugestão que lhe dei. Tendo em conta que, de momento, tenho alguma disponibilidade, mas não sei bem quando a voltarei a ter, gostaria de, não excluindo a possibilidade de contactos futuros, responder já, enquanto ainda tenho tempo, àquilo que diz.

        Admito que os critérios dos exames são eles próprios bastante objectivos e compreensivos (sobretudo este ano, com a possibilidade de se considerar respostas cientificamente correctas, mesmo que não estejam compreendidas nos critérios), e, quanto a isso, não há argumentação possível. O principal problema, ou o que eu vejo como sendo o principal problema quanto aos exames, não é tanto esses mesmos critérios, mas sim o facto de serem aplicados de igual modo em todas as escolas, quando essas escolas (e os alunos que as frequentam) não estão, de modo algum, em pé de igualdade. É certo que, conforme refere, o programa é igual em todo o lado, mas, como, de certa forma, deixa implícito, o programa não é aplicado de igual forma em todo o lado. Mais a mais porque “a competência dos professores” a que se refere nem sempre é assim tanta, e nem todas as escolas têm as mesmas condições…

        Mas, muito sinceramente falando, os exames apenas constituem um aspecto relativamente secundário comparativamente ao panorama geral do ensino; não são a causa, mas antes a consequência de uma série de perspectivas e de paradigmas pedagógicos que se têm mantido há muito tempo e que (atrevo-me a dizê-lo) podem não estar assim tão certos quanto isso. Mas, sendo, de certa forma, um dos aspectos mais “controversos”, diria eu, do ensino, constituem um óptimo ponto de partida para a reflexão acerca do actual sistema de ensino, razão pela qual fiz o meu comentário anterior.

        E, aliás, mais do que criticar os exames em particular, acho que é todo o sistema de ensino que deve ser criticado. É certo que, como refere, começa a haver «(…) uma série de cursos profissionais, que ajudam os que não querem seguir além da escolaridade obrigatória (…)» e outras «(…) coisas viradas para uma área oposta à área geral das ciências, quer sociais e humanas, quer naturais e tecnologias (…)», mas, apesar de tudo, não é possível um aluno escolher mais do que uma via, ou seja, não é possível frequentar. Poder-me-ia dizer que, na vida, se tem de fazer escolhas e que muitas vezes se tem de abdicar de algumas coisas para se ter outras, mas, se me permite, a maioria das coisas que existem neste Universo e que transcendem a mísera existência humana (e a ainda pior influência humana), como sejam a Arte, a Matemática e a Natureza, ensinam-nos que nunca há um só caminho para chegar ao destino.

        Desculpe-me o lirismo, mas o que eu quis dizer que, na maioria dos casos, é puramente por determinação humana que se tem de fazer escolhas na vida; assim, não me parece lícito que se justifique a determinação humana de se ter de fazer escolhas no ensino com a determinação humana de se ter de fazer escolhas em geral. Tudo isto para dizer que, apesar dessa aparente abertura, o actual sistema de ensino ainda estabelece demasiadas restrições aos conhecimentos que o aluno pode adquirir, o que, a meu ver, é indesejável. É por isso que proponho o novo sistema de ensino que lhe dei a conhecer e que, se estiver interessado, gostaria de debater consigo.

        Aguardo a sua resposta.

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