Olhos tapados, vozes silenciosas

Existem diversas formas de diálogos, formas que procuramos para nos entender como podemos neste mundo onde tudo parece desentendido hoje em dia. No entanto, não posso deixar de realçar que nada me faz sentir pior que interagir contigo! Sim, contigo que estás aí a ler isto! Voltas ao início, relês este parágrafo de novo e perguntas para ti se não estarei doido, louco, completamente insano para estar a fazer uma afirmação como esta e eu digo-te que não, estou completamente certo do que digo!

Nada me faz sentir pior que interagir com alguém a quem não consigo prender o olhar, ou a quem não consigo olhar nos olhos, faz-me sentir como se estivesse a tentar dizer milhões de coisas, sem ser convincente, sem mostrar toda a sinceridade que o olhar pode ajudar a demonstrar, sem fazer perceber que o que digo é o que quero dizer, sem mudar ponto nem vírgula, faz-me confusão isto!

Faz-me confusão saber que há quem não consiga ver além daquilo que a luz lhe permite. Existe todo um mundo diferente para lá do espectro, talvez aquele que vês quando fechas os olhos e sonhas, como se não soubesses que ias sonhar. Por vezes encontras um mundo alternativo nesses sonhos, um mundo que preferes que seja aquele em que vives, um mundo que te faz sentir bem, que te faz reviver com muito mais vontade quando pensas que afinal existe. Porque é que há tanta gente que prefere ter os olhos abertos em vez de os fechar para poder sonhar?

Num diálogo os olhos são importantes, mas a voz é o elemento fundamental, sem ela o que seria de nós? Uma desordenação completa e um caos no mundo? Óbvio que não! Quem nunca se apercebeu da existência daquela pessoa que guarda palavras para si que, por vezes, ao não terem sido proferidas, são capazes de evitar o maior desastre de que há memória? Mas e quem nunca se apercebeu do que é conversar com alguém, sem ouvir a música das palavras que lhe sai da boca? É monótono, por vezes torna-se incompreensível! Oh ironia! Oh mentira! Oh espanto! Tudo qualidades do que disse até aqui e similarmente qualidades indetectáveis sem que se ouça uma única sílaba da boca do nosso interlocutor.

Mas também aqui há quem consiga ouvir o que não é dito, quem consiga perceber o que não é perceptível ao ouvido! Afinal o mundo já viveu de cartas e pombos correio! E tantas e mais pessoas que vivem de gestos, acções, actos particulares que valem mais que qualquer palavra, pessoas que vivem de imagens, imagens que valem mais que mil palavras, mas afinal…

Voltamos ao início, as imagens vêm-nos dos olhos, as palavras da boca, mas quem mantém os olhos abertos conseguirá brindar-nos sempre com palavras que façam sentido ao nosso ouvido? Ou será que só quem fecha os olhos e sonha é que consegue fazer o decalque daquele desenho que vê de olhos fechados e o descreve pormenorizadamente por palavras? Afinal o olhar e a voz vivem intimamente ligados!

Não consigo conceber uma conversa onde não olhe nos olhos do meu interlocutor e onde não ouça o chilrear da sua voz, mas consigo fechar os olhos, amordaçar a boca e fazer o que fiz aqui, colocar a mente a trabalhar para unir os dois sentidos e brindar o mundo de algo que pode realmente valer por mil palavras, mas que foi feito de olhos fechados, ou então dar-vos a todos algo que não vale a pena porque simplesmente foi aqui colocado de olhos abertos e voz aguda!

Texto do caderno de 02/07/2015

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s